Wellington & Nilson – A dupla brasileira

Foto de Zabelinhazab
Lisboa seguia morena, deserta, desprevenida, bafejada por uma suave brisa. A luz, há muito enamorada pela cidade das sete colinas, com nobres sentimentos, incidia pelas apertadas ruas da capital portuguesa. Era um dia estranho para o crime, mas esse não vive de “tickets”.
Pelas 15:05 de quinta-feira da tarde de 7 de Agosto de 2008 na rua Marquês da Fronteira, em Campolide, Lisboa, Wellington Nazaré e Nilson Souza, dois cidadãos brasileiros, entravam armados com duas pistolas de calibre 6,35 mm na dependência do Banco Espírito Santo. Dentro do banco encontravam-se seis pessoas.
Nilson Ferreira de Souza, com 32 anos na altura dos factos, nasce em Santana do Mundo Novo, no Município de Juramento, Estado de Minas Gerais, no seio de uma família pobre e humilde. Nilson era filho de Graciano Souza, dedicado envangélico e trabalhor agrícola. Cedo foi trabalhar para Cuiabá, no Mato Grosso, onde fez de tudo – trabalhava no corte de madeira, no comércio e chegou a ser motorista e pedreiro. Estava em Portugal há pouco tempo. O seu companheiro, Wellington Rodrigues Nazaré, com 23 anos na altura do assalto, nasce no Município de Coronel Fabriciano, na região metropolitana do Vale do Aço, no Estado de Minas Gerais. Em Portugal foi empregado de mesa num restaurante em Montegordo, no Algarve, trabalhou na construção civil, foi recepcionista numa residencial de Lisboa enquanto fazia um “biscate” numa empresa de mudanças.
Nilson tinha pintado o cabelo de louro, disfarçado o aparelho dos dentes com uma pastilha elástica e colocado umas lentes de contacto azuis. Esperava com este disfarçe não ser reconhecido posteriormente pelas imagens CCTV e por possíveis testemunhas. Até tinha um carro de fuga preparado – um Volkswagen Polo em 2.ª mão que tinha comprado dias antes mas que não chegou a utilizar.
Os dois sabiam que havia cerca de 96 mil euros no cofre da dependência. Sabiam também que arriscavam tudo, mas não desejavam matar ninguém. Queriam dinheiro fácil, aquele que todos os bandidos sem poder político acreditam existir. Coisas de mancebos, sonhos de bandidos lunáticos que não foram “alumnis” de Vale e Azevedo.
Momentos após terem entrado no banco e empunhado as pistolas, uma cliente que levantava naquele momento dinheiro no multibanco, avisava a polícia.
Agentes da PSP chegam ao local e confrontam os assaltantes. Em pânico agarraram dois funcionários e escaparam para o interior do banco. Quatro clientes conseguiram escapar. Era o inicio de uma odisseia de 8 horas transmitida em directo pelas televisões portuguesas – fascinadas pela possibilidade de audiências únicas e clamando, doentiamente, por sangue. Portugal inteiro acompanhava, espantado, com o desenrolar do dramático espectáculo. A “virgindade criminal” portuguesa era mais uma vez colocada em questão. Francisco Moita Flores, ex-inspector da Polícia Judiciária, era das poucas vozes naquela noite que apelava à serenidade e calma.
As negociações não corriam bem. Nilson recusava entregar-se e Wellington avisava (por telemóvel) o primo, Rodrigo Nazaré, que preferia o suicídio a entregar-se à polícia.
Durante várias horas de tensão, os dois recusaram a comida que tinham pedido e mantinham uma postura agressiva que influíam sobre os reféns – fragil “corda”, bem sabiam, que os agarrava à vida.
Até que os dois tomam uma decisão fatídica. Na esperança de poder fugir num veículo, um Smart, que se encontrava estacionado em frente ao banco, decidem ir para a porta da frente. Era a grande oportunidade para os atiradores especiais do GOE, que se tinham colocado em posição privilegiada, aguardando apenas ordens superiores, fazerem aquilo para que tanto treinam – resolver a situação.
Num instante tudo acabava, desaparecia. O que era deixava de ser, volatizado, a tensão em descompressão. A morte, estrangeira para muitos de nós, era recebida carinhosamente.
Nilson caía desamparado no chão atingido no pescoço por uma bala calibre 7,62 mm disparada por um “sniper” do GOE. Wellington escapava, mas com ferimentos graves – uma fractura no maxilar e o crânio atravessado por uma munição. O sentimento de vingança cumprida pairava no ar e chegava a hora da libertação dos dois reféns – Vasco Taborda e Ana Antunes.
As televisões dedicavam-se a fastisiosas análises. As senhoras voltavam para as novelas, os senhores para a cerveja. Os que não tinham largado um livro nem se tinham apercebido de nada. Poucas horas depois Portugal adormecia embalado por bonitos sonhos de balas que zumbiam nos ouvidos dos “mauzões”. No dia seguinte o país acordava sedento por um especial “Você na TV” (conduzido pelo perito criminal, Manuel Luís Goucha). Não pediam muito, apenas um “cocktail” de mau gosto, algo que os alienasse e lobotomizasse o resto do dia.
O Ministério Público que pedia, pela voz da procuradora Maria João Lobo, uma medida da pena adequada à gravidade dos factos praticados, conseguiu que Wellington fosse ontem condenado a 11 anos de prisão efectiva, tendo ficado provado todos os crimes de que era acusado, nomeadamente o roubo na forma tentada, sequestro e detenção de arma proibida.











